Pelo respeito ao nascimento – Gabi Sallit

Gabi Sallit é mineira, advogada e autora do blog Dadadá. Mãe do João, que tem 1 ano, compartilha na primeira entrevista da série Pelo respeito ao nascimento a sua visão sobre parto e como a violência obstétrica entrou na sua história pessoal e profissional.

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– Eu vejo o parto como marco importante na vida de mães e filhos. Assim, acho interessante a pessoa conhecer a história do próprio nascimento, também como uma forma de construir o nascer dos filhos. Você conhece a história do próprio nascimento? De alguma forma isso conduziu o caminho do parto do seu filho?

Minha mãe leu Leboyer e nasci naturalmente depois de 12 horas de trabalho de parto, em um hospital. Esta história sempre me foi contada com orgulho, olhos brilhando, como uma primeira declaração de amor: “quis que você nascesse sorrindo”, ela sempre diz. É claro que isto me influenciou. Quando engravidei, não conhecia o movimento de humanização, mas tinha introjetada a imagem de que os bebês tinham que nascer com respeito e que isto era uma realização para a mulher. Quando mamãe foi visitar o João pela primeira vez, foi com o mesmo orgulho que ela tinha de si própria que ela me olhou. #aiai

– Uma das minhas lembranças mais vivas do parto da Clara foi o momento em que ela escorregou do meu corpo para a vida. Lembro direitinho da sensação e chego a ficar emocionada quando recordo. E pra você? Qual foi o momento mais marcante do parto do seu filho?

Ananda, tenho maravilhosas memórias do meu parto, mas, definitivamente não posso dizer que João escorregou! É mais adequado falar que ele foi expulso! 😉

Muitas coisas me lembram meu trabalho de parto: dias chuvosos, o gosto de maracujá, uns mantras engraçados que estavam tocando na casa de parto. A memória mais espetacular, entretanto, é a do cheiro que João tinha quando nasceu. A enfermeira só o amparou e me entregou; eu o cheirei e poderia estar fazendo isto até agora. Minha boca se enche d’água, era espetacular, um milhão de feromônios feitos para que eu o amasse para sempre. Se tivesse engarrafado seu cheirinho, poderia vender como poção do amor…

– Como incentivar as mulheres a se empoderarem e serem as donas do próprio parto?

Contando a nossa história. Quando uma amiga nos ouve falar do parto como uma experiência de prazer e superação, ela também passa a desejar isto para si. Quando falamos para a grávida do nosso lado que não tivemos episiotomia, ela descobre que também não precisa ter a a vagina cortada. Se seu bebê nasceu naturalmente com o cordão enrolado no pescoço, você fará um bem enorme se publicar isto em um outdoor. Se teve um parto normal depois de cesárea, ou apesar de estar com mais de 41 semanas de gestação, tem que imprimir uns panfletos contando e distribuir na rua! 🙂

Em um país onde mais de 80% dos partos da rede privada são cesarianas, as mulheres estão perdendo a referência do que é natural. Mitos são repetidos tantas vezes que se tornam verdades absolutas. Não é raro alguém me dizer que não conhece ninguém que pariu. Neste contexto, é fácil espalhar por aí que “esse papo de parto humanizado é modinha”, que “só há parto domiciliar na Holanda porque uma ambulância fica parada na porta”, ou outras bobagens do gênero.

A melhor forma de ajudar é criar um ciclo virtuoso de informação de qualidade e relatos de experiências felizes.

– Conheci o Dadadá através da repercussão do assunto violência obstétrica. Como que o tema entrou na sua vida? Passou a ser uma “bandeira” para você?

Passou a ser o objetivo da minha vida, Ananda. Tenho duas missões: criar o João e os outros filhos que eu tiver como pessoas felizes e decentes e ajudar as mulheres a se protegerem da violência obstétrica.

Entrei nesta sem querer. Fui uma grávida dedicada: frequentei grupos de apoio, participei de listas de discussão e pesquisei muito na Internet. Sempre me chocaram os relatos de violência obstétrica, mesmo quando não tinham este nome. Conheci uma moça que tinha uma história muito triste e que não queria simplesmente “deixar para lá” (leia aqui). Eu a ajudei a representar contra a equipe que a agrediu no CRM, e, depois, a ajuizar a primeira ação que buscava reparação moral por VO (violência obstétrica). Acabei escrevendo sobre o assunto no Dadadá. Isto teve uma grande repercussão na internet e, depois, diversas outras mulheres me procuraram, pedindo que eu as representasse. Hoje tenho muitas ações com este tema no escritório.

– O que você diria para uma mulher que foi vítima da violência obstétrica?

Sinta o meu abraço. Esta angústia nunca vai passar, mas pode doer menos.Trabalhe para que seu próximo parto seja feliz (sim, é possível!!!), para que outras mulheres tenham experiências realizadoras. Temos que criar uma corrente de amor, pois cada bebê que é recebido no mundo com respeito ajuda a multiplicar exponencialmente as chances dos próximos! (afinal, somos mães! Quando vemos uma coisa boa acontecendo por aí, fazemos tudo para garantir aos nossos filhos, né!!!)

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* Ilustração by Joana Heck. Próximo post da série: segunda-feira, 1º de julho.

Confira também as outras entrevistas da série:
Ricardo Jones
Ligia Moreiras Sena
Mayra Calvette

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21 comments

  1. Pingback: Falando de Respeito ao Nascimento no Projeto de Mãe! Que honra! | Dadadá é blablablá de mãe pra mãe

    • Carla Ibba

      Adorei seu ” pitaco” por aqui. Te acompanhar me deixa esperançosa.
      Não pari, nem sou gestante – ainda – e sim, quero meu parto humanizado 😀 . Pesquiso sobre o tema há um bom tempo, e infelizmente, onde moro não tem opção – o que era pra ser obrigação – de PD ou PH, já cesárea, tem aos monte, inclusive as personalizadas (oi ? ).
      Não sou gordinha, sou GORDA, rs, entretanto, uma gorda saudável, tanto é que os médicos pelo menos nisso me elogiam, já quando cito a frase: quero engravidar e ter meu bebê do modo mais natural possível. É motivo de espanto e cara feia, um GO teve a cara de pau de me falar: E meu lado ($) como fica ?
      Mereço isso? Peguei bronca do ser, e semana passada, enfim, consegui uma ginecologista bacana, ainda não comentei com ela a minha vontade, essa semana tenho outra consulta e tô torcendo para ela ao menos ser a favor do PN. 😀

      Obrigada, viu ? Adoro o Dadadá

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      • Ô, Carla, que delícia de comentário! Adoro quanto alguém adora o Dadadá! 🙂 Amei seu comentário do face, fiquei triste de vc ter achado que tinha me desagradado!
        Se vc ainda não está grávida, tem uma vantagem gigante: já está buscando informação. Esta é a melhor vacina contra a violência obstétrica.
        Onde vc mora? Quem sabe conheço alguma equipe por aí?

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  2. Que bom ver a Gabi por aqui! Parabéns pela série, Ananda.
    PS. Erik nasceu de parto normal com cordão umbilical amarrado no pescoço (talvez por isso eu tenha precisado, e aceitado de bom grado, uma episiotomia).

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  3. Juliana Matos

    A Gabi está certíssima quando diz que compartilhar as experiências contribui para a concientização das outras mulheres para temas importantes como o parto natural e violência obstétrica. Acredito que assim vocês estão sempre parindo novas mães, mais esclarecidas e mais valentes. E nem estão sentindo as contrações, olha que espetáculo! (Será??)

    Eu mesma sou uma, que renasceu ao conhecer o “maravilhoso” mundo do empoderamento e batalha, esperneia e sapateia para conseguir dar um nascimento respeitoso para meu pequeno. Fácil não será, mas eu sei que vou conseguir… se não me internarem por insanidade antes disso.

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  4. Pingback: Pelo respeito ao nascimento – Ricardo Jones | projeto de mãe

  5. Fernanda Nunes

    Parabéns pela iniciativa de ajudar mulheres vítimas de violência obstétrica. Sou mãe há 11 meses (www.mulherquecorrecomlobos.com.br) e mesmo tendo pago uma equipe obstétrica humanizada, fui vítima da equipe de enfermagem do hospital no pós parto. Entendo bem da sensação de impotência e raiva da situação. Também me sinto responsável por divulgar, falar, debater e incentivar que nós mulheres mudemos esse cenário.

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  6. Pingback: Pelo respeito ao nascimento - Ligia Moreiras Sena | projeto de mãe

  7. Andreia

    Olá Gabi!

    Simplesmente A-D-O-R-E-I seu blog.
    Morro de medo de passar por essas atrocidades em uma maternidade. Em todas que pesquisei em Belo Horizonte, houvi falar de algum problema. Por favor, em qual maternidade você teve o João?

    Abraços e parabéns pelo blog. Virei fã!

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  8. Simone

    Essa nossa bandeira,de vento em polpa la vai rompendo barreiras…..seja por varios lugares….deixamos sempre palavras de apoio a quem precisa,coragem e aquela pulguinha em quem ainda esta so começando a caminhada e isso é maravilhoso,amo ver que nossas escolhas e lutas podem contribuir para os outros .bjs Gabi sempre na luta

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  9. Pingback: Pelo respeito ao nascimento - Mayra Calvette | Projeto de Mãe

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