Pelo respeito ao nascimento – Ricardo Jones

Ricardo Jones é médico, com especialização em ginecologia, obstetrícia e homeopatia. Trabalha em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e faz parte do colegiado nacional da ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento.

É autor de diversas publicações nacionais e internacionais e dos livros “Memórias do Homem de Vidro – Reminiscências de um Obstetra Humanista” e “Entre as Orelhas – Histórias de Parto”.

Autor do blog Orelhas de Vidro, é pai do Lucas e da Bebel e avó do Oliver, de 4 meses, filho de Lucas e Nani.

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– Dias atrás li um texto seu na Vila Mamífera sobre parto também ser papo de homem. Concordo e sempre fiz o possível para informar o meu marido sobre o assunto e torná-lo integrante de todo processo de gestação e parto. Quando que o tema entrou de forma decisiva na sua vida? Foi a partir da sua formação acadêmica ou do nascimento dos seus filhos?

Os acontecimentos que precipitaram a minha opção pela obs­tetrícia foram os partos de meus dois filhos: Lucas, ocorrido quando não eu contava mais de 21 anos de idade, e Bebel, que nasceu 12 dias antes de mi­nha ceri­mônia de formatura. Entrei na residência médica com dois filhos nasci­dos de parto normal, tendo passado por uma experiência poderosa de amadu­reci­mento. Obtive autorização para assistir a ambos os partos apenas por ser estu­dante de medicina, mas tal concessão me abriu as portas para uma nova reali­dade.

Pude perceber a violência institucional velada, que se expressa atra­vés dos pequenos detalhes. Frases, expressões, normas, proibições eram consti­tuintes da arquitetura de um sistema assimétrico e agressivo. Pude tes­temu­nhar as formas insidiosas de desqualificação das mulheres e a visão de­precia­tiva que cultivamos sobre suas capacidades de gestar e parir. No nasci­mento de meus filhos, pude constatar, pela primeira vez, a misoginia essencial que comanda o proceder obstétrico, que se expressa pela compreensão defec­tiva da maternidade. E esta foi uma experiência fundamental.

Se a formação acadêmica pôde me oferecer informações e uma visão técnica sobre os procedimentos médicos, a vivência da paternidade foi muito mais intensa e importante. Muito mais do que escutar, visualizar e mesmo participar de eventos como este, vivenciar, envolver-se e sentir na carne o nascimento dos próprios filhos é algo muito mais poderoso. Minha entrada na obstetrícia e, mais ainda, na humanização do nascimento, veio por um peculiar olhar masculino sobre um evento essencialmente feminino, mas que pode – pela sua importância e intensidade – deixar marcas no pai que também naquele momento nasce.

 – Li em uma entrevista sua que você é casado com uma doula e parteira (Zeza Jones). Como que teve início a relação de vocês com a humanização do nascimento? Foi um caminho percorrido junto?

Na verdade a minha relação com Zeza vem desde que eu tinha 17 anos. Já contamos mais de 35 anos de convívio. Entretanto, após o nascimento do meu primeiro filho no mesmo hospital onde eu estudava, a minha definição pelo trabalho obstétrico ficou definida.

Quando do nascimento de minha filha Isabel, apenas alguns dias antes da minha cerimônia de formatura, a minha inquietude quanto à forma como a obstetrícia se expressava estava atingindo limites preocupantes. Alguns meses após o início do trabalho como residente eu pude perceber que a humanização do nascimento e a vinculação com o movimento emergente sobre o resgate da dignidade do nascimento eram as minhas únicas alternativas profissionais. Já não era mais possível aceitar a maneira como era conduzido o parto nas maternidades ocidentais, com seu alto nível de violência institucional dissimulada. Minha mudança de paradigma foi um passo natural em direção a uma postura que há muito tempo eu entendia como necessária.

Eu creio que as minhas tomadas de decisão em relação à humanização do nascimento estimularam Zeza a fazer sua pós-graduação em enfermagem obstétrica e decidir-se por atuar ativamente na atenção ao parto. Naquela época, final do século passado, era muito incomum encontrar “parteiras profissionais” atuando, e no Rio Grande do Sul não havia nenhuma. Como eu estava atendendo com doulas (Cristina, a primeira doula a atuar aqui em Porto Alegre) ela resolveu juntar-se a nós para formar uma “equipe de atenção interdisciplinar”, composta de um obstetra, uma doula e uma enfermeira obstetra. Isso aconteceu em 1999 e desde lá atuamos nessa configuração.

– Acredito que a questão da banalização das cesáreas eletivas é um ponto que parte também (mas não exclusivamente) dos médicos. Qual a sua opinião sobre isso? Como trabalhar o problema?

Os médicos (ou o “modelo médico”) são os principais responsáveis pelo crescimento no número de cesarianas, mas não os únicos. A verdade dolo­rosa sobre a atenção contemporânea ao parto é que os critérios de atenção ao parto não são centrados exclusivamente no bem estar da paciente e do bebê por nascer e deslocaram-se para a figura do médico, atual detentor do conheci­mento autorita­tivo relacionado ao evento.

A elevação do médico a este posto superior foi duramente conquistada nos últimos séculos, incrementando-se de maneira intensa no sé­culo XX. Parte desta dominação se deu através do quase extermínio das parteiras. Poucos séculos nos se­param desta obstetrícia “feminina”, mas podemos constatar nos dados que nos che­gam a modificação significativa que produ­zimos no atendimento às gestantes.

No mundo ocidental contempo­râneo, quase todos os partos são realizados em hos­pitais, estando as mulheres apar­tadas do seu ambiente e da sua família. O nasci­mento dei­xou de ser um evento cultu­ral para se tornar um acontecimento médico. A jornada tecnoló­gica adentrou e apode­rou-se do evento do nascimento, des­locando a própria mulher do pa­pel de protago­nista. Os mé­dicos e seus instrumentos tornaram-se os atores principais do parto. Às mulhe­res cabe a tarefa de transportar os “filhos do mundo”, para que no final do trajeto se­jam recebi­dos pelos guardiões da sa­úde e do bem estar, em nome da sociedade e das institui­ções.

Com tanto poder e responsabilidade colocados na mão da medicina é natural que aqueles que a controlam tentem fazer com suas necessidades de tempo, descanso e dinheiro também sejam satisfeitas. O aumento de cesarianas é um “efeito colateral” da estrutura de atendimento, e pelo fato de que as “especialistas em fisiologia do parto” terem sido afastadas em nome da colocação de cirurgiões para realizar esta tarefa. A reintrodução sistemática e continuada de parteiras profissionais para o atendimento ao parto é uma forma de transformar a face do nascimento e fazer com que ele retorne à fisiologia de antes, mas agora com mais possibilidade tecnológica para ajustar os casos patológicos através do uso de aparatos de diagnóstico e tratamento que a modernidade no presenteou.

– Como o obstetra pode ajudar a mulher no processo de empoderamento para o parto?

Oferecendo o protagonismo para as mulheres. Entendendo o nascimento como um evento social, e não médico. Reconhecendo o nascimento como evento apical da feminilidade, sobre o qual atuam forças sociais, emocionais, psicológicas, afetivas espirituais e – acima de tudo – numa configuração subjetiva, única e intransferível. Para além disso é importante que tenham uma visão interdisciplinar, com o respeito aos outros atores que fazem parte da cena de parto e do debate sobre o significado dele na cultura, e um respeito às evidências científicas que norteiam e orientas o trabalho, as intervenções e o cuidado aplicado às mulheres durante este período tão criativo de suas vidas.

– Tenho dois filhos. Ambos nasceram no hospital, através de parto normal. No entanto, se eu engravidar novamente desejo ter um parto domiciliar. O principal motivo é o conforto e a segurança de estar no meu próprio espaço. Falando sobre o assunto com algumas pessoas, percebo que o tema ainda é motivo de desconfiança. Por que isso acontece?

Acontece por ser um tabu. Para muitos profissionais, a entrada dos médicos no cenário do parto (deslocando as parteiras) foi um avanço por trazer as luzes da ciência sobre um terreno muito mitológico e pouco estudado. Isso em parte é verdade; não há dúvidas que a ciência, com sua visão racional sobre os fenômenos, muito pode nos auxiliar e ensinar. Todavia, a falha do sistema médico em reconhecer e trabalhar com as necessidades psicológicas, afetivas e sociais de um evento tão antigo quanto a própria humanidade é a base para a criação de movimento de humanização.

É necessário reavaliar o caminho percorrido, para que não cometamos mais os mesmos erros. A assistência ao parto segue as mesmas regras sociais onde ele está inserido. Desta maneira, o atendimento ao parto se dará de uma forma autoritária, machista, preconceituosa e rude quanto menos desenvolvida for a discussão social sobre o papel e os direitos da mulher nesta mesma sociedade. O debate sobre o parto é muito mais uma discussão sobre direitos reprodutivos e sexuais femininos do que um embate sobre técnicas, riscos e segurança. Por outro lado eu acho que é tempo de se criar um modelo que seja “o melhor de dois mundos”. Por um lado o trabalho centrado na confiança, na paciência e na fisiologia de um parto normal e fisiológico, atendido por parteiras treinadas e capacitadas. Por outro lado, é fundamental que tenhamos o trabalho de médicos com capacidade para lidar com os casos patológicos e que usem as intervenções – da mais simples à mais sofisticada – para dar conta de todas as pacientes que nos procuram.

Quanto ao parto domiciliar eu recomendo que as pessoas – tanto os médicos quanto os pacientes – discutam esta questão por outra perspectiva. Para debater segurança em partos extra-hospitalares (domicílio e casas de parto) é importante que se apresentem PROVAS quanto a segurança, e não meras opiniões, caso contrário a conversa se torna estéril e sem qualidade. Desta maneira eu não aceito no debate expressões como “eu acho que”, “minha opinião é” ou “ouvi falar que”. Não, elas em nada nos ajudam. É preciso fazer como os humanistas, que se apressam em apresentar as evidências de segurança, obtivas através de estudos multicêntricos coletados em diversos lugares do mundo, alguns deles com mais de 600 mil partos avaliados. Quando temos em mãos tais informações fica claro perceber que os partos domiciliares são tão seguros quanto aqueles realizados em hospitais quando obedecem a três pressupostos fundamentais: serem de “risco habitual” (baixo risco, sem doenças ou problemas concomitantes à gestação), serem planejados (incluindo aí todos os equipamentos necessários para uma atenção qualificada) e terem um bom sistema de referência hospitalar (quando surge um problema e a paciente precisa ser levada ao hospital). Quando esses critérios são respeitados não há dúvida: o parto domiciliar é um recurso válido e seguro para a assistência ao nascimento, e um direito que deve ser assegurado pelos gestores dos sistemas de saúde, assim como ocorre em países de primeiro mundo, como a Inglaterra.

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* Ilustração by Joana Heck. Próximo post da série: segunda-feira, 8 de julho.

Confira também as outras entrevistas da série:
Gabi Sallit
Ligia Moreiras Sena
Mayra Calvette

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7 comments

  1. Daniele Gindri Camargo

    Essas são as idéias do médico que areditou no meu potencial de parir, respeitou nossos desejos e nos auxiliou a trazer a Sofia ao mundo da maneira mais digna e natural possível! Isso tudo com a melhor equipe interdisciplinar que há!!!! Não me canso de agradecer pela oportunidade única de conhecê-los e ter condições de lutar pelo que acredito!

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