Pelo respeito ao nascimento – Ligia Moreiras Sena

Ligia Moreiras Sena é bióloga, professora e a Cientista que Virou Mãe.

Mãe da Clara, que completa 3 anos este mês, escreve no seu blog sobre maternidade ativa, parto, infância e medicalização.

Na entrevista, ela comenta sobre o nascimento da filha e de que forma a situação a conduziu ao ativismo. Além disso, fala sobre o processo de produção do documentário “Violência obstétrica: a voz das brasileiras“, produzido com depoimentos colaborativos.

ligia
– O meu caminho até o parto dos meus filhos começou a ser traçado no meu nascimento. Minha mãe teve os três filhos em parto normal hospitalar. Assim, sempre a tive como referência e isso influenciou na busca pelos partos do Vítor e da Clara. E na sua vida? O que te conduziu até a escolha inicial pelo parto domiciliar?

Inicialmente, uma aversão a ambientes hospitalares, que sempre tive. Sempre vi o hospital como um lugar para tratar o doente, não como lugar de nascimento. Então, quando sequer pensava em ser mãe, uma grande amiga optou pelo parto domiciliar. Eu, que nunca havia pensado nessa possibilidade, fiquei encantada quando soube. O filho dela nasceu em casa e ela me chamou para conhecê-lo poucas horas após o nascimento. Lembro-me do espanto e encantamento que senti ao vê-los, ela e o bebê, tão bonitos, confortáveis e aninhados em sua própria casa, em como ela me recebeu na porta, sorriso largo, cabelos molhados pelo banho, totalmente à vontade e feliz.

Aquela imagem foi muito positiva para mim. Quando entrei no quarto, o bebê estava em cima da cama do casal, com a mãozinha na boca, olhinhos abertos, muito quentinho, na casa onde havia nascido. Naquele momento eu soube que nenhum outro lugar poderia oferecer essa recepção e acolhimento a quem estava chegando ao mundo e, embora nem imaginasse que seria mãe, disse: essa é uma escolha que eu faria.

Então, um ano e meio depois, me vi grávida. Uma gravidez não planejada, de um relacionamento recém iniciado, que me assustou bastante. Eu não sabia como seria nada, exceto uma coisa: o parto domiciliar era a minha escolha.

– Uma das coisas que mais chamou a minha atenção no seu relato de parto foi o acolhimento que você destaca que recebeu no hospital quando os planos mudaram. Acredito que isso tenha contribuído na segurança para encarar uma cesárea, certo? Como você se sente quando pensa que muitas mulheres não têm o mesmo tratamento e o mesmo amparo? Isso te motiva no trabalho de conscientização em relação à violência obstétrica?

O acolhimento que eu recebi após o encaminhamento da casa para o hospital foi em grande parte devido à presença de uma enfermeira que fazia parte da equipe de parto domiciliar planejado que eu havia contratado, que me esperou e esteve ao meu lado lá no hospital. Ela preparou a sala (e talvez a equipe, não sei…) para me receber e isso fez uma enorme diferença. Mas não foi isso que contribuiu para a minha segurança ao encarar a cesárea.

Naquela época eu realmente achei que tinha sido isso. Mas hoje, depois de muito debater e esmiuçar todo o processo, não acho mais. Sabe o que me fez encarar a cesárea? A falta de informação. Naquela época eu aceitei a cesárea como necessária, talvez por um mecanismo de defesa, para preservar meu emocional no pós parto, inconscientemente. Hoje eu sei que não era necessária. Faz relativamente pouco tempo que concluí isso – depois de conversar bastante com diferentes profissionais em quem confio totalmente sobre tudo o que aconteceu durante meu trabalho de parto, encaminhamento, chegada no hospital e continuação do trabalho de parto lá.

Eu não precisava ter passado por isso… Foram 25 horas de trabalho de parto em casa. Mais 4 horas no hospital. Dilatação até 9 cm. E, no fim, precipitação por parte da médica obstetra… uma precipitação que eu aceitei. E foi isso que me levou a uma cirurgia. Na hora, eu pensei que estava agindo de maneira correta ao aceitar o procedimento como inevitável, mas somente achei isso por não ter informações precisas.

Na verdade, sofri muitas intervenções desnecessárias durante todo o processo, muitas. Consta nos registros de nascimento da minha filha que foi uma cesárea de emergência por sofrimento fetal. Mas se isso fosse verdade ela teria nascido com baixas notas de Apgar e, no entanto, suas notas foram 9 e 10. Isso não é compatível com sofrimento fetal. Ou seja. Foi, sim, uma cesárea desnecessária. Ainda assim, no geral, foi um bom atendimento coletivo – exceto pela precipitação final da médica.

Quando eu penso que poderia ter sofrido violência desde minha chegada ao hospital, ao dizer que estava sendo encaminhada de uma tentativa de parto domiciliar e por saber o que as equipes médicas em geral pensam sobre isso – principalmente em uma maternidade cesarista como é a que me atendeu, a Santa Helena, em Florianópolis, com índices estratosféricos de cesariana – sinto-me um pouco aliviada. Mas não muito. Afinal de contas, embora não tenha sido agredida, eu acabei na mesa de cirurgia. Saber que muitas mulheres passaram por momentos de angústia, de tristeza, de falta de amparo e acolhimento, tendo tido seus filhos por parto normal ou cirurgia, me deixa extremamente angustiada. Saber que enquanto estou escrevendo isso mulheres estão sendo tratadas como subprodutos do parto deixa-me sempre muito mal. Porque, justamente por ter vivido uma situação não desejada, sei como é importante ter um bom atendimento, como ele pode te ajudar a não passar por aquilo que vai te trazer cicatrizes, físicas e emocionais.

– Fiquei muito emocionada quando assisti o documentário sobre a violência obstétrica. Confesso que ele me abriu os olhos para uma violência que também fui vítima no meu primeiro parto. Como foi produzir o vídeo? Qual foi a repercussão do documentário?

Foi muito doloroso produzir aquele documentário. Nós precisamos parar diversas vezes pra tomar um ar, conversar sobre outros assuntos, dar uma relaxada. Foi muito difícil mesmo. O que nos motivou durante todo o processo foi saber que aquilo seria importante não somente para aquelas mulheres, mas para muitas outras. Que seria, talvez, a primeira oportunidade de dar voz a todas as mulheres violentadas no parto, dar representatividade, mostrar o quão violenta é a assistência ao parto no Brasil.

Foi um trabalho feito com muito respeito. Buscamos nos colocar no lugar de todas aquelas que estão representadas por ele, no sentido de ajudar a ressignificar uma experiência tão dolorosa. Lembro-me de assistir ao documentário pronto, editado e chorar sentidamente. Porque eu sabia que era importante, mas sabia também que seria uma longa luta. E eu temia pela repercussão dele… Nós não sabíamos no que ia dar. E se aquelas mulheres fossem novamente desrespeitadas por comentários ruins? E se elas fossem culpabilizadas pela violência que sofreram? E se não houvesse boa aceitação? Eu tinha esse medo porque não tolerava imaginar que elas pudessem ser, novamente, violentadas por cometários maldosos.

No fim, para nossa imensa felicidade, nada disso aconteceu, pelo contrário. A repercussão foi extremamente positiva. Muitas pessoas se solidarizaram, se sensibilizaram, abriram seus olhos e ouvidos não somente para elas, mas para TODAS as mulheres que, com cada vez mais frequência, aparecem para contar suas histórias de violência sofrida. O vídeo entrou para o ranking dos mais assistidos no Youtube na semana de seu lançamento, na categoria ativismo/sem fins lucrativos. Ele foi e continua a ser apresentado em simpósios, conferências, encontros, cursos, palestras na área da saúde, e tem estimulado o debate e a reflexão sobre o assunto. Foi uma repercussão muito maior e melhor do que nós mesmas havíamos imaginado.

– Como que o ativismo pelo parto entrou na tua vida? E de que forma isso influencia e faz parte da tua trajetória profissional?

O ativismo entrou com tudo na minha vida após o nascimento da minha filha, muito provavelmente em função do desfecho que o nascimento dela teve. Se com todo o empoderamento que eu tive para escolher por um parto domiciliar, ainda assim eu havia vivido uma cesárea, imagine pelo que estavam passando as mulheres de maneira geral? Quando eu ouvi de uma amiga o que ela havia vivido no nascimento do filho dela, senti uma revolta tão grande, tão profunda, foi um sentimento de indignação tão forte que a única coisa que eu pensava naquele momento era “Não é possível que as mulheres estejam vivendo isso e ninguém veja, e ninguém fale e sequer as pessoas saibam que isso existe! Isso não é possível!”.

Naquela época, meu blog já estava sendo bastante acessado. Não tanto quanto agora, mas estava. Eu sabia que podia utilizá-lo para alcançar mulheres de diferentes lugares, para conversar com elas sobre isso, para estimulá-las a falar sobre o assunto. Mas não sabia como.

Como eu sou cientista, tenho alma de cientista, logo pensei em elaborar uma pesquisa informal no blog, com o intuito de chamar mulheres que haviam sofrido violência no parto para dar seus depoimentos. Isso tudo depois da divulgação dos resultados da pesquisa da Fundação Perseu Abramo, aquela que mostrou que 25% das brasileiras sofrem violência no parto. Quis montar uma pesquisa informal, mas temia pela questão ética. Não me parecia muito ético tocar na ferida dessas mulheres apenas porque “eu queria saber mais”.

Então pensei de que forma eu poderia transformar aquela “vontade de fazer algo” em uma coisa séria, válida, respaldada por princípios éticos. Uma coisa levou a outra. Decidi escrever um projeto de pesquisa como ativista. Mas a coisa ficou séria. E foi quando vi que isso tinha muito mais significado pra mim do que minha formação anterior. E que por meio disso eu poderia tentar alcançar mais mulheres e transformar a luta em caminho mesmo. Então deixei a carreira anterior, fiz desse projeto um objetivo de vida, recomecei, em um novo doutorado, e tenho a grande satisfação de viver simultaneamente a pesquisa e o ativismo de maneira tão entrelaçada, tão íntima, que não é possível saber quando termina um e começa o outro.

Eu sempre soube que meu caminho era lutar pelos direitos das pessoas, mas não sabia como. E então a vida me mostrou. E me mostrou por meio da não realização daquilo que eu mais queria, que era ter recebido minha filha na intimidade da minha casa. Eu sei o que é não ter uma experiência de parto como se sonhou. O que eu puder fazer para que as mulheres não vivam isso, para que possam ser plenas em suas histórias de vida, para que vivam o parto da maneira que sonharam, vou fazer. E quem sabe esse caminho não me ajude a vivê-lo, um dia, também…

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* Ilustração by Joana Heck. Próximo post da série: terça-feira, 30 de julho.

Confira também as outras entrevistas da série:
Gabi Sallit
Ricardo Jones
Mayra Calvette

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11 comments

  1. Fernanda Nunes

    Ligia, tenho um respeito e admiração enormes pelo seu trabalho. A forma que você escreve é clara, direta e embasada – o que considero essencial para o sucesso do seu blog. Que bom que você teve essa experiência desagradável, ela permitiu você abrir uma porta e vasculhar um lugar que muitas mulheres passam de forma triste e nem sabem que nao deveriam passar por aquilo. Sinto a mesma pulsão que você, fiz o meu blog a princípio para falar de feminismo e engravidei. Um outro portal foi aberto e sinto que tenho o mesmo dever, ser uma ativista. Parabéns mais uma vez! http://www.mulherquecorrecomlobos.com.br

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  2. Adorei Ananda! Linda entrevista da Lígia! Sempre me emociono ao ler esses relatos, ao inveredar por esse assunto. Eu sempre tive convicção pelo parto normal, minha mãe teve dois partos normeis, minh abisavó era parteira, cesárea jamais esteve nos meus planos. Quando me vi grávida e comecei minhas pesquisas vi o quanto seri difícil conseguir o meu sonhado parto normal, nessa época tive acesso ao Parto do Princípio e às listas de discussão sobre o mesmo, mergulehri nas pesquisas em busca de toda informação para que pudesse evitar a violência obstétrica. Tive um parto natural a caminho do hospital, minha filha nasceu e imediatamente veio mamar, permanecemos juntas durante umas duas horas mas qdo chegamos ao hospital as violências começaram com as intervenções na pequena, colírio, aspiração e por aí vai. Mesmo tendo conseguido ter minha filha naturalmente e amamentado logo após o seu nascimento, sinto-me agredida com o que veio depois. Meu sonho hoje seria um parto domiciliar!!! beijo

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  3. Wania Cris

    "Sabe o que me fez encarar a cesárea? A falta de informação. Naquela época eu aceitei a cesárea como necessária, talvez por um mecanismo de defesa, para preservar meu emocional no pós parto, inconscientemente. Hoje eu sei que não era necessária. Faz relativamente pouco tempo que concluí isso" – eu conclui isso agora…

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  4. Elaine Miragaia

    A dor da Ligia é só dela, mas ao mesmo tempo é de todas nós que tivemos nossos partos roubados. E muitas vezes é através dela que nos assumimos ativistas, conscientes e passamos a visar um bem maior. Ótima iniciativa, Ananda. E parabéns Ligia pela coragem e sinceridade.

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  5. Ronise Teran Cavalcanti

    Eu tive as duas experiências e a da cesárea foi infinitamente positiva comparada ao natural. Aliás detesto a palavra "normal". Acho extremamente preconceituosa.

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  6. Wania Cris

    Ronise Teran Cavalcanti, também tive duas cesáreas, com excelente recuperação em ambas, mas, nem é essa a questão, sabe? Minha primeira cesárea foi direcionada desde o início, apesar de meu médico me fazer crer que eu estava no comando. A "mágoa" que fica é de ter sido ludibriada. Mesmo que eu fosse ter cesárea de qualquer forma, seria mais ético que ela fosse necessária pelas circunstâncias e não pela agenda do médico… enfim, o que vale é que meus filhos estão aqui, né?

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  7. Ana Cristina Teixeira

    Ronise Teran Cavalcanti Talvez seu parto não tenha sido natural. Se ele foi ruim, ele deve ter sido um parto "comum", aquele parto que convencionou-se chamar de "normal", mas que é uma anormalidade, um desrespeito e uma violência contra a mulher e o bebê.

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  8. Luciana Fazano

    Seu relato me emociona! meu filho tem 1 ano e 5 meses, é uma criança linda e saudável, mas o parto dele… não tenho nem palavras, foi muito difícil. Também fiz uma cesárea e o meu marido não pôde nem acompanhar o parto, pois o hospital não permitia devido o centro cirúrgico ser “pequeno”, isto num hospital particular! Como foi tudo às pressas, não consegui nem questionar, mas me senti violentada desde aí. Senti-me sozinha e triste nesta hora tão importante da minha vida! Fora outras coisas… mas, enfim, estou aqui, como você tentando assimilar tudo isto. Forte abraço!

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  9. Maroá Zotelli

    Fiquei três horas em trabalho de parto, dentro do hospital e juro que fiz de tudo na gestação pensando em parto normal (pilates e caminhadas regulares, além dos cuidados com alimentação para não engordar muito, enfim). Após três longas horas, minha filha, que já estava encaixada desde a 35° semana, não se mexia, não descia um dedo a mais do que já estava posicionada. Minha médica, após duas horas de dilatação total, me perguntou: E ai, o que você quer fazer? Eu? Eu queria parto normal e ela teria que nascer a fórceps (pois ela estava encaixada ao contrário).
    Eu, bióloga, que queria por tudo nessa vida que minha filha viesse ao mundo da maneira mais normal possível, voltei pra casa com um corte no baixo ventre. Fiquei arrasada, muito triste, mas o medo de expor a minha pequena vidinha a qualquer risco me deixou sem opções. Muito triste mesmo…

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