Pelo respeito ao nascimento – Mayra Calvette

Julho foi um mês intenso, de muito trabalho e com outras prioridades. Assim, o blog acabou ficando um pouquinho de lado e a série teve a programação alterada.

Peço desculpas e volto com o último post, que apresenta uma entrevista com Mayra Calvette.

Mayra é enfermeira obstetra e mora em Florianópolis. Este ano, ela nos presenteou com o programo Parto Pelo Mundo, no canal GNT, resultado de um projeto incrível.

Por 9 meses, ela e o marido, Enrico Ferrari, viajaram pelo mundo para conhecer mais sobre o ritual do nascimento em diversos países. Além disso, o casal levantou informações sobre a assistência à gestante e ao bebê nos locais que percorreram.

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– Eu adoro ouvir a história sobre o dia em que nasci. Entre as peculiaridades da narrativa, está que minha mãe foi levada pelo meu pai para o hospital de moto, já em trabalho de parto. Você conhece a história do seu nascimento? Pensa que de alguma forma o jeito que você nasceu e a forma como isso foi te apresentado virou uma referência pessoal? Acredita que pode ter influenciado, inclusive, na sua decisão profissional?

Claro! Eu nasci na minha própria casa, em um ambiente amoroso e tranquilo, indo direto para o colo da minha mãe (enfermeira), sendo assistida pelo meu pai (médico) e cercada pelas minhas avós. Essa era a época em que o movimento pela humanização do parto estava iniciando no Brasil e em outros países, os berçários deixando de existir e alguns livros sendo publicados sobre o assunto, livros que minha mãe leu e me deu mais tarde!

Durante toda minha infância, sempre escutei minha mãe falando de parto como uma experiência maravilhosa, o que aguçou muito a minha curiosidade. Ela teve cinco partos naturais!

Quando eu era criança, costumava dizer que “queria tirar neném”. Quando cresci, não tive dúvidas que queria trabalhar ajudando bebês a chegarem no mundo!

– Nunca assisti pessoalmente nenhum parto. Apenas vivenciei o nascimento dos meus dois filhos através de parto normal hospitalar. Mesmo assim, vídeos de parto me deixam muito emocionada. Impossível não derramar uma lágrima de felicidade pela chegada de um bebê, principalmente se for em um ambiente acolhedor e de respeito. Como que é viver assim, acompanhando partos? Chega a se tornar banal ou é sempre uma nova emoção?

É uma grande emoção, uma nova experiência a cada nascimento, pois um é sempre diferente do outro! Essa é a minha grande paixão mesmo, ajudar os bebê a chegarem ao mundo e ver essas mulheres se transformando em mães.

É lindo ver essas mulheres desabrochando, redescobrindo sua verdadeira essência e poder pessoal, ver aqueles olhinhos abrindo pela primeira vez e explorando o novo mundo ao seu redor. É uma profissão que requer muita dedicação e amor mesmo, você tem que estar a disposição a qualquer hora do dia e da noite, não tem uma dia certo ou horário para acontecer, e nem tempo para acabar!

– Acompanhei praticamente todos os episódios de Parto Pelo Mundo. Achei o programa impecável, tanto no aspecto informativo quanto visual (edição, finalização, trilhas, etc.). Como que surgiu a ideia da produção?

Desde quando comecei a me envolver com a humanização do parto tinha vontade de conhecer os modelos de assistência ao redor do mundo. Eu conhecia através de pesquisas e leituras e admirava os modelos de atenção ao parto na Holanda, Inglaterra, Nova Zelândia, entre outros países. Quanto mais aprendia, mais o modelo de atenção ao parto predominante na nossa cultura parecia necessitar uma reavaliação.

A ideia do projeto surgiu de um momento de inspiração, como se fosse um chamado, eu não tinha como não fazer. Tudo convergiu para o projeto acontecer. É assim, quando seguimos nosso coração 😉

Ainda durante a viagem veio o contato com a Cinevídeo Produções, a produtora que fez a produção do programa. Quando chegamos ao Brasil nos reunimos, apresentamos a proposta para o canal GNT e juntos produzimos o programa Parto Pelo Mundo.

– Nos 9 meses de viagens, teve alguma história ou peculiaridade que mais chamou a sua atenção? Pode compartilhar com a gente?

Tem muitas histórias, de realidades completamente diferentes. Desde Camboja, onde a realidade é bem precária aos nossos olhos, onde vivenciei os nascimentos em vilas mais distantes da cidade, até países desenvolvidos, como Nova Zelândia, Holanda e Inglaterra.

Camboja, por exemplo, é um país onde as culturas e tradições ainda encontram-se muito vivas. Ao mesmo tempo, o local possui uma história triste de profundo sofrimento, com o regime do Khmer Vermelho.

Cambojanos acreditam que o corpo da mulher torna-se frio após o parto. Eles têm formas diferentes para aquecer o corpo, mesmo que a temperatura esteja quente. Uma mulher não deveria tomar banho por alguns dias até uma semana após o parto; deve manter o corpo coberto da cabeça aos pés; consumir alimentos que aqueçam o corpo; cerca de 90% das famílias fazem o “ang pleong” ou rosting, que é uma fogueira embaixo do estrado de bambu onde as mulheres e bebês deitam e ficam “assando”, procedimento que às vezes se estende por 10 dias, para prevenir dor nas costas no futuro e melhorar a pele. Os rituais pós-parto servem para prevenir o que eles chamam de “Tos”, que são problemas a curto e longo prazo.

Lembro que uma das visitas me tocou profundamente, a família vivia em condições muito precárias, a comida era escassa, a casa tinha apenas um cômodo pequeno e eles já tinham 4 filhos. No meio da visita, a mãe ofereceu o bebê de 5 dias de vida para eu levar comigo… eu não conseguia nem falar, não conseguia parar de chorar por uma tristeza profunda que tomou conta de mim… eu não podia levar aquele bebê, mas sabia que seria muito difícil para aquela família ter mais uma criança para alimentar… acabei comprando comida para a família e até hoje envio muita luz para eles e para as famílias de Camboja.

Na Nova Zelândia, depois de um período de mudanças profundas, o modelo de assistência ao parto tornou-se uns dos melhores do mundo.Todos os serviços que englobam a maternidade são gratuitos para os residentes na Nova Zelândia. Isto inclui todo o cuidado pré-natal, parto e atendimentos até seis semanas após o nascimento.

O cuidado ao processo de nascimento é baseado na atenção primária de saúde. A maioria das mulheres e suas famílias escolhem uma parteira (mais de 75%). As parteiras que cito aqui são parteiras formadas, que podem ser enfermeiras obstetras e obstetrizes (elas estudam 4 anos para se tornarem midwife – obstetriz ou parteira urbana no Brasil).

A parteiras podem trabalhar nos hospitais, em casas de parto ou de forma independente. Parteiras independentes trabalham com cerca de 50 mulheres por ano. Elas dão continuidade de cuidado, desde o início da gravidez até em torno de seis semanas após o nascimento do bebê.

As mulheres podem escolher o lugar que querem dar à luz, que pode ser em casa (cerca de 7%); centro de parto normal ou maternidade primária – só partos normais; maternidade privada (não é gratuito); maternidade secundária ou terciária.

Eu saí de lá com o coração cheio de esperança, ideias e planos. Acreditando que a mudança é possível.

– Qual foi a repercussão do programa? Acredita que ele ajudou a abrir a mente das pessoas sobre o tema parto, principalmente no aspecto cultural?

Foi muito boa, muitos contatos do Brasil todo e até de outros países. Muitas mulheres e profissionais mandando email e mensagens se sentindo inspirados a fazer parte desse movimento por um nascimento mais respeitoso e seguro. Com certeza ajudou sim com experiências de outros países, ver o que acontece ao redor do mundo e seguir os modelos que já estão funcionando. É interessante também ver como vivemos em um mesmo mundo, mas com realidades tão diversas e de uma riqueza indescritível.
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* Ilustração by Joana Heck.

Confira também as outras entrevistas da série:
Gabi Sallit
Ricardo Jones
Ligia Moreiras Sena

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4 comments

  1. De.

    A Maíra parece ser daquelas pessoas que te acalmam só de estar no mesmo ambiente.
    Fico feliz de saber que temos uma pessoa iluminada como ela em nossa cidade. Grandes chances de o segundinho (quaaaaaando houver um) ser recepcionado no mundo por uma equipe como a dela (if you know what I mean…)

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