Blogagem coletiva Coração Materno: empatia nas redes sociais

coracaoFaz algum tempo que participo de grupos segmentados no Facebook. Entre os da minha lista, certamente mais da metade é de mães.

Na participação em tais grupos e também acompanhando os perfis e páginas nas redes sociais de blogs de maternidade que gosto, volta e meia percebo uma constante: o julgamento alheio.

Não se trata de uma discordância ou uma informação. É julgamento mesmo, do tipo que levanta o dedinho e balança na cara da pessoa, com a outra mão na cintura e o pé batendo no chão. Uma vontade de atacar, de ser dona da razão.

Claro que não é algo totalizante, mas acontece… e muito! Gente que ataca as escolhas alheias sem fazer ideia do contexto da outra pessoa, do nível de informação e das singularidades. Afinal, somos seres complexos e uma atitude isolada do que nos cerca pode não ser tão representativa.

Eu já fui muito mais “forte”, digamos assim, na minha militância, seja pelo parto normal, pela amamentação e outras questões do universo materno e infantil. Forte no sentido de agressiva, indelicada e inflexível. Queria defender as minhas ideias com unhas e dentes. Cheguei a sair de alguns grupos por ter dificuldade em me expressão e aceitar as escolhas dos outros.

No entanto, com o amadurecimento e o contato com redes de ativismo que atuam com o objetivo de trabalhar o acolhimento entre as mães, fui descobrindo um outro lado. Passei a entender que cada situação tem a sua particularidade e que a agressividade não estava me levando a lugar nenhum. Pelo contrário, as pessoas acabavam me marcando como “a chata do parto normal”, “a defensora voraz da amamentação e alimentação saudável”, entre outras definições. Isso as afastava de mim e criava resistência em tudo que eu dizia, por mais embasamento que tivesse.

Então, deixou de ser uma questão de “estar certo” para focar na empatia. Busquei uma nova forma de me expressar, afinal, eu quero, seja através do blog, das redes sociais ou de grupos pessoais, defender as minhas ideias e defender o acesso à informação de qualidade, visando melhorar vários aspectos ligados à relação entre pais e filhos, mulher e seu corpo, mãe e bebê, etc. De tal forma, torna-se necessário entender o universo do direito de escolha e o que isso implica.

Infelizmente, o direito de escolha é pautado por um sistema regido por interesses mercadológicos, capitalistas e marcados pelo consumo. Assim, defender que uma mulher tem o direito de escolher como será o nascimento do seu filho, por exemplo, não é tão simples. É fundamental considerar que ela recebe influências de todos os lados. Seja do médico, do plano de saúde, das pessoas ao seu redor. Contudo, o que “costura” tudo isso é a informação, os dados, as evidências.

Sendo assim, precisamos trabalhar o acesso à informação. Para enfrentar o sistema a mulher deve estar munida de todo conteúdo que a permita abrir os olhos e enxergar a situação em um panorama mais completo e complexo. Ela precisa visualizar as possibilidades, as opções, os prós e contras de cada escolha. Só assim ela vai poder se liberar das amarras do sistema e conseguir trabalhar pelas suas vontades e desejos, não pelo que é imposto por outros, por N razões.

E como trabalhar a informação? Com empatia. Respeito. Solidariedade. Sororidade. Quanto mais acolhedora for a abordagem, mais chances de conseguir fazer a informação chegar nas outras mães.

Um exemplo. Se uma mãe pergunta:

– O que vocês acham de dar leite com achocolatado para meu bebê de 9 meses?

Resposta A) Eu nunca dei achocolatado para os meus filhos. É uma porcaria, nada saudável. Por que tu quer dar essa coisa para o teu bebê?

Resposta B) Oi Fulana! Tudo bem? Achocolatado tem bastante açúcar e por isso eu consideraria evitar incluir no leite do bebê. Já pensou em bater uma frutinha? Aqui em casa é um sucesso.

Qual das abordagens tem mais chances de ser considerada pela mãe que levantou a questão? Qual mostra mais empatia e acolhimento? Qual transmite a informação sem ataque?

Viu, não se trata de concordar sempre. O ponto é saber se expressar com mais atenção e cuidado, considerando que a outra pessoa tem a sua realidade, as suas vontades e outras influências.

É um exercício constante, mas pela minha experiência eu posso dizer: faz diferença. Somos todas mães, temos muitas coisas para se preocupar, resolver, providenciar. Cada uma com as suas limitações, dificuldades e características pessoais. Todavia, unidas por algo precioso: a vontade de acertar e fazer o melhor para os nossos filhos.

Então, vamos nos unir? Vamos estabelecer uma rede de apoio mútuo, de empoderamento? Vamos fazer valer o nosso direito real de escolha?

Eu dou todo meu apoio!

Comentários Facebook

6 comments

  1. Pingback: Blogs participantes da blogagem coletiva Coração Materno | Projeto de Mãe

  2. Pingback: Ela e eu. | Barriga de bebê: o que as mães não dizem…

  3. Excelente, Nanda!
    O exemplo que você deu mostra tudo! Para treinar a empatia, basta que a gente veja, na pessoa que está perguntando sobre o achocolatado, sua irmã ou sua melhor amiga. Quase certo que a gente vá preferir responder com carinho e respeito.
    Ainda há grupos que defendem um tom mais pesado, “porque nada se resolve no morninho”. Eu compreendo, é uma reação a um status quo que também joga pesado. O problema é quando atinge outras pessoas que na verdade também são vítimas. Por isso, prefiro acreditar no acolhimento.
    Beijos!

    View Comment
    • Ananda Etges
      Author

      Muito bem colocado, Marusia. A resposta agressiva não deixa de ser uma resposta ao contexto. Mas enfim, se for para optar, eu tb vou pelo caminho do acolhimento. Beijos!

      View Comment
  4. Adorei o seu exemplo! A empatia é inclusive uma questão de estratégia, não vamos mudar o mundo com ataques gratuitos, mas talvez consigamos algum avanço com um pouco de carinho… No fim das contas a experiência materna também se mostra assim, não é?

    View Comment
  5. Ananda,

    Eu gosto muito quando você conta de como a própria experiência de maternidade ajuda nesse aprendizado de uma maior tolerância e solidariedade, né? Ainda preciso de muita doçura porque alguns assuntos fazem meu sangue ferver e acabo militando e militando. Mas reconheço que “bater de frente” não ajuda muito, nem a conseguir criar um espaço de discussão. É delicado esse desafio de como poder dizer algumas coisas sem atacar, pois existem coisas que precisam ser ditas, que precisam ser pensadas, que precisam mudar. Mas sem machucar quem é nosso igual. Abraço grande e parabéns pela iniciativa do projeto, adorei participar.

    View Comment
    • Ananda Etges
      Author

      Menina, mas tu não tem noção do quanto já quebrei a cara por segui a conduta mais agressiva. Aprendi na porrada mesmo, vi que não tava me levando a lugar nenhum e resolvi tentar fazer diferente. Tem dado certo o/ Beijos e obrigada por participar!

      View Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *