Hoje a culpa materna me pegou

Hoje a culpa escorregou pelo meu rosto em forma de lágrima. Veio na escuridão da estrada, enquanto dirigia. Voltava do terceiro turno do dia, ansiosa para chegar em casa antes das crianças estarem na cama. Cansada, depois de um dia cheio e longe dos pequenos.

Dia que começou com “vamos logo”, “tô atrasada”, “tô com pressa”. Pressa, aquela danadinha que invade momentos que deveriam ser mais nossos, menos das nossas obrigações.

Acontece que entrei de novo naquele ritmo insano de mil tarefas. Tive que dar prioridade para alguns projetos, assumir novas responsabilidades. Era para ser pontual, mas foi crescendo e tomando cada vez mais tempo.

Enquanto eu ainda acreditava que seria temporário… conseguia me manter firme. Todo dia pela manhã, ao deixar o Vítor na escola, suportava olhar no fundo dos olhos que imploravam para ficar comigo e dizer que aquilo logo ia acabar. Que em breve ficaríamos em casa juntinhos, para fazer tudo ou para fazer nada. Não importa, estaríamos juntos e isso seria o bastante.

Contudo, como num passe de mágica, os ventos mudaram e trouxeram outras possibilidades. Desde então, tento desviar o olhar agachada na frente da porta da escola, quando ouço o mesmo pedido: “quero ficar com a mamãe”. Aquilo corta meu coração e faz com que eu abaixe a cabeça e fique sem palavras. Peço mais um beijo e vou embora, de forma covarde, por não ter coragem de dizer a verdade, que não sei quando vamos ficar juntos pela manhã novamente.

Assim, hoje, no retorno do último compromisso do dia, a culpa me pegou em cheio, por todos os sentimentos confusos que me habitam. Ela me deu um nó, me enrolou. Por fim, transbordou em forma de lágrimas e inundou minha indecisão.

Por que precisa ser assim? Por que conciliar é tão difícil?

Sigo em busca de respostas e, principamente, de conforto para um coração em pedaços por escolhas (ou falta de).

vitor
* Foto de Adriene Antunes

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9 comments

  1. Ana paula

    A culpa talvez seja o que mais me deixa angustiada já 12 meses… Preciso trabalhar mas tentei reduzir bastante meus horários q sem resumem ao turno da manha em um hospital. Saio de casa as 6:30 e chego as 14h louca pra pegar meu filhote! Mas chego cansada e pra minha sorte ele sempre tira uma soneca na parte da tarde, dai aproveito para dormir tb! Mas depois tem as coisas de casa, comida pra fazer, brincar e brincar e lanche, janta, banho e cama! Fico cansada e me sinto culpada por isso pois muitas vezes fico sem paciência. As madrugadas q ele tem acordado estão né deixando como um zumbi na manha durante o trabalho… Mas torço para q seja mais um de muitas fases e q em breve volte a ter noites melhores para poder estar inteira com ele durante as tardes…

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    • Ananda Etges
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      Ah, Ana! Bom saber que não estou sozinha. Eu por um bom tempo consegui flexibilizar. Mas nos últimos tempos acabei assumindo novos projetos e isso me desorganizou toda. Mas enfim, negócio é tentar ir ajustante para ficar da melhor forma possível… pra gente e, principalmente, para os pequenos, né? Beijos!

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  2. As experiências a gente não consegue compartilhar. É uma pena. Temos que vivê-las todas cada um de nós para apreciarmos o sabor do novo aprendizado. Mas eu gostaria tanto de poder dar de presente para cada uma de vocês a certeza de que não vale a pena sofrer. Passei por todos estes momentos, passamos nós todas, mas a vida dá suas voltas e você vai ver como tudo isto é tão pequeno e este sofrimento e a culpa tão desnecessária.

    Tudo o que parece grande agora, acaba diluído no tempo.

    De tudo o que aprendi trago a lição de que só o que vale a pena é ser feliz. Mais nada. Não há presença que compense a frustração de abrir mão dos objetivos. Só quem é feliz pode criar filhos felizes. E seus filhos são muito felizes. Não tenho dúvida disto. É só olhar.

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    • Ananda Etges
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      Verdade, Marina. Concordo contigo que a presença não compensa a frustração de abrir mão do que desejamos. Então, sigo na certeza de que vai valer a pena. Em breve vou poder compensar todo esse tempo. Afinal, a vida é feita de fases, né? Beijos!

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  3. Ananda, nunca estaremos imunes a essa culpa. Uma palavra no seu texto me chamou a atenção e me lembrou de uma situação muito delicada que passei há bem pouco tempo. Não se acovarde em falar para os seus filhos como vc se sente. Nomeie seus sentimentos e diga o que se passa no seu íntimo. Vc se sentirá mais segura e eles também.

    Concordo com tudo o que a Marina falou.

    Se vc puder, leia o texto em que conto como contornei a situação. Vai que te inspira, te ajuda.
    Está no blog Dadadá.

    Fique bem.

    Beijo

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  4. Pingback: Quando os filhos perdem o controle (e a gente também) | Projeto de Mãe

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