Dor de mãe

Estava em um aniversário infantil. Ao som de Galinha Pintadinha, as crianças corriam de um canto ao outro do salão. Sorriam, brincavam, gritavam. Deixavam o riso invadir todos os espaços do ambiente.

Vez ou outra um choro ecoava. Um gemido. Uma briga. Coisas de pequenos ansiosos por descobrir um mundo tão seu, tão novo, tão grandioso.

Nas mesas algumas mães e pais conversavam entre uma observada e outra na direção dos brinquedos. Olhos atentos buscavam os respectivos filhos. Uma vez localizados, os adultos seguiam em conversas despretensiosas.

Eu trocava algumas palavras do universo materno com uma mãe já conhecida. Falávamos sobre festas infantis, o ambiente escolar, as amizades dos pequenos. Até que, de forma inocente, o diálogo chegou no assunto número de filhos.

Conto que quero ter mais um ou dois. Rimos e ela fala que está tentando engravidar novamente (tem uma menina da idade do Vítor). No entanto, por entre um silêncio, faz uma revelação, em tom baixinho de confissão: eu perdi um bebê. Sou surpreendida e me perco nas próprias palavras.

Ela conta a sua história. O fato aconteceu quando já estava na metade da gravidez. Seria o primeiro filho, amado, desejado, sonhado. Já tinha berço, roupas, espaço na casa, na vida e no coração. Até que já não estava mais lá.

Senti toda sua angústia e tristeza ao lembrar da situação. Uma dor tímida, guardada, mas não esquecida, nem remediada.

Uma dor que não consigo nem tenho a pretensão de mensurar. Uma dor que cala, deixa os olhos baixos e cheios de lágrimas.

Em silêncio, não encontro espaço para a fala. Até que, após uma breve pausa, ela completa:

“Era um menino”.

Seu olhar marcado pelas lembranças encerra o assunto e não me deixa espaço para dizer o que gostaria. Voltei para casa arrependida pelo ponto final que me deixou sem ação. Queria ter levantado e dado um abraço. Segurado a sua mão e esboçado alguma palavra de conforto.

Eu sinto muito.

Precisava dizer isso.

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7 comments

  1. Puxa agora quem ficou sem ação aqui fui eu… Já vivi duas vezes essa dor…da última vez foi meio assustadora,mas graças a Deus passou… É triste dói…quando contei um dia desses a história da segunda perda os dois se olharam,respiraram fundo e me disseram como é que eu tinha tamanha calma e leveza ao falar do fato.Eu disse é…é que agora eu tenho meu segundo filho…se não nem sei se conseguiria contar o que se passou…
    Espero que essa mãezinha possa ser surpreendida assim como eu fui quando soube da noticia do nosso pequeno Bernardo.

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  2. Ilana

    Sabe ananda, tenho escutado e estudado muito sobre essa dor, a dor da perda.
    É algo por si só muito triste. Mas se torna mais difícil ainda quando não pode ser falado e elaborado. Quando os outros – nós todos, nossa sociedade – encara esse ssunto como um tabu. Porque daí, além de lidar com o luto, a pessoa tem que lidar também com o silêncio e a solidão que o acompanha.
    Que bom que ela pode falar a você. E que bom que vc pode ouvi-la. Acredite, já é muito.
    Beijos

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