11 meses, 15 países e 40 cidades: viagem e desapego, por Karol Denardin

Viagem e desapego são assuntos recorrentes no blog, principalmente agora, pelo momento que estamos vivendo. Assim, tudo que leio relacionado serve como grande inspiração para nosso projeto de morar no exterior.

E, para inspirar outras pessoas também, apresento hoje no blog uma história de tirar o fôlego. A Karol foi minha colega de trabalho durante a faculdade. Nos formamos mais ou menos na mesma época e cada uma seguiu seu rumo profissional.

Um ano atrás ela decidiu mudar de vida. Confira abaixo o relato da Karol e algumas fotos da sua experiência na Europa.

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Dizem que a gente só toma uma atitude quando a coisa toda se torna insustentável. Comigo foi mais ou menos assim. Demorei uns cinco anos para virar a mesa.

Desde que me formei jornalista, em 2009, trabalhei em vários lugares. Sempre fechadinha e tendo a tela do computador como vista panorâmica. Era como se a cada novo emprego o ar fosse ficando rarefeito. A vontade de viajar e viver em meio a natureza gritava todo dia, mas muitas coisas me prendiam.

Um quase casamento, um apartamento recém comprado e, principalmente, o medo. Pavor de jogar tudo pro alto e perder aquela falsa sensação de segurança que só um emprego fixo, um par e uma casa própria podem te dar. Mas chega uma hora em que a vontade de mudança é mais forte do que qualquer apego. Foi então que “um belo dia resolvi mudar.”. Em um mês estava tudo resolvido.

Comprei a passagem, aluguei meu apartamento, raspei a poupança e fui. Cheguei na Itália, fiz minha cidadania em dois meses (no Brasil estava esperando há 10 anos) e na primeira cidade em que fiquei, decidi desapegar da mala de 32kg e partir com a minha mochila pequena. Quatro mudas de roupa, um casacão, havaianas e botas. Eu que nunca fui muito de maquiagem, reduzi minha nécessaire a um batom, pra ocasiões muito especiais.

Há anos eu sonhava em fazer parte da Wwoof, uma associação onde voluntários escolhem fazendas orgânicas e trocam mão-de-obra por acomodação e comida. Meu primeiro destino foi uma fazenda de azeitonas no interior da Sicilia. A paisagem era linda, no meio do nada, dormindo em um trailer, sem internet ou energia elétrica e o banheiro era um buraco no chão.

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Se eu ainda estava apegada a alguma coisa, esses dois meses vivendo “somente o necessário” fizeram a limpeza geral. Saí de lá leve, precisando de cada vez menos. Do calorzinho italiano, parti para um giro com meu melhor amigo rumo ao leste europeu, em pleno janeiro e suas temperaturas negativas. Três ou quatro dias em cada cidade, muitas noites de quartos compartilhados e o exercício de “deixar ir” só aumentou.

Depois de um mês grudados, desapeguei do meu amigo e fui para Barcelona, onde aluguei um quarto e finalmente tive um armário pra poder esvaziar a mochila. A perspectiva de vida é outra quando um banho quente, guarda-roupa e máquina de lavar são as coisas que fazem o teu dia mais feliz. Para pagar o aluguel, trabalhei como garçonete em uma cantina italiana na Espanha. Três meses intensos em Barcelona e voltei para a Itália – o desapego também reina na hora de escolher o lugar para morar/estar.
Agora trabalho em uma fazenda na fronteira da Toscana, pertinho do mar. Além de aprender técnicas de plantio em permacultura, sou monitora em um acampamento de verão, cercada de crianças. Minha bagagem se resume a uma mochila (sim, a mesma de um ano atras), alguns euros e uma bicicleta que encontrei no ferro velho.

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Saudade da familia e dos amigos? Muita e sempre. Mas a distância serviu pra reforçar as boas relações e limpar as que já estavam desgastadas. Depois de viver tudo isso sempre penso que a mudança de cidade ou pais é como um término de relacionamento. Você passa algum tempo sendo torturado pela indecisão, mas quando chega a hora certa, simplesmente vai lá e faz.

Até agora, em 11 meses passei por 15 paises, mais de 40 cidades, dezenas de hostels e amigos de todos os continentes. O que fica é uma certezinha boa de que não importa o lugar, mas o teu coração tem sempre que vibrar. O que não dá é pra passar os dias reclamando da vida.

Para isso existe a lei dos dois pés: “Se você está em um lugar onde não esteja nem contribuindo, nem aprendendo, use os seus dois pés e vá para outro lugar”. E assim eu vou, sem me preocupar muito com o futuro, tudo acontece no tempo certo, como esse ano de estrada me mostrou lindamente. O Deus Mu dança!

* Acompanhe mais sobre as viagens da Karol no Tumblr.

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